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Entre Aspas – Parem de Falar Mal da Rotina, Elisa Lucinda

“Do outro lado da rua, numa esquina mais radical, apoiado num tronco milenar, entre latas, folhas de caixa de papelão, embalagens e uma pontual garrafa de cachaça, vive Júlio, um mendigo. Júlio é um clássico como tal. Sujo, vivendo no mundo paralelo que é o mundo da rua, rosto e tornozelos encharcados pelo álcool. O que me chama especial atenção é que esse pobre personagem porte um galhinho de arruda na orelha esquerda, que é pra ninguém lançar mau-olhado nas coisinhas dele, né?

Dentro dessa fina névoa da invisibilidade, ao vê-lo e cumprimentá-lo deu-se uma mágica: em meio à aparente imundície de seu “lar” do outro lado da rua, ele me oferece um jardim no olhar. Agrada a ele que eu o reconheça. Passamos a sempre nos cumprimentar. Uma vez sumiu. Perguntei ao Reinaldo. Ninguém viu. Passaram-se dois meses sem Júlio na paisagem. Pensei: Terá morrido? Tem parentes? Saberão? As pessoas podem se perder, mas, parente, aparentemente todo mundo tem. (…)

Num outubro ensolarado, pleno já de primavera estabelecida, ressurge Júlio sob a mesma árvore frondosa. O mendigo de minha rua por quem eu já nutria certo luto. “Júlio, você voltou! Que alegria! Sumiu, rapaz, onde é que você se meteu?”. Desdentado, descansado e satisfeito, sorridente de boca e olhos, ele me respondeu: “Eu tava de férias”"

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