Pesquisador brasileiro, radicado nos EUA, aponta erros cruciais responsáveis pela frustração pessoal e profissional da maioria das pessoas. Jacob Pétry organizou quatro anos de pesquisas em “O Óbvio que Ignoramos”, obra que trata resgata o comportamento humano e auxilia as pessoas a organizar suas vidas.
Qual é o fator óbvio mais problemático que a maioria das pessoas ignora?
Apontaria três coisas. Primeiramente, a maioria de nós não tem a mínima ideia sobre quem realmente é; depois, nós não somos quem pensamos ser; e, ainda, nossa liberdade, por não sabermos quem somos, é muito mais limitada do que acreditamos.
Explique.
Se eu te perguntar quanto é dois mais dois, você dirá, sem hesitar, que é quatro. Você sabe isso de forma clara. Porém, se te perguntar: quem é você? O que acontecerá? Você falará qualquer coisa como seu nome, sua profissão etc. Nós, pelo menos a grande maioria de nós, não temos ideia sobre quem, realmente, somos. Lidamos, no dia a dia, com um desconhecido, um estranho. Isso afeta tudo que fizemos. Cria insegurança, medo, desânimo e imprevisibilidade. Emoções que nos impedem de expressar nossa liberdade.
Qual é o primeiro passo para obter sucesso?
Descobrir onde estão seus pontos fortes e investir neles, aprimorá-los com técnica, conhecimento e prática. E isso serve tanto para empresas como para pessoas.
O que é um ponto forte?
Ponto forte é a área onde está nosso talento, nosso interesse espontâneo, nossa curiosidade natural, ou seja: nossa paixão. É a área onde temos a capacidade de desenvolver certa atividade com uma facilidade maior do que a de nossos pares. Todos têm essa capacidade em certa área, mas poucos a exploram.
Você diz que ignoramos nosso talento. Por quê?
Basicamente, por dois motivos específicos: Primeiro, por atuarmos com incrível facilidade na área em que está nosso talento, pensamos que todo mundo é capaz de fazer a mesma coisa, como a mesma facilidade com que nós fazemos, e assim, ignoramos nossa excepcionalidade. Nos enganamos. Não é assim que funciona. O que é fácil para você pode ser extremamente complicado para mim. Além disso, o ambiente no qual crescemos, como a escola, por exemplo, raramente estimulam o desenvolvimento do nosso potencial.
Qual o problema com a escola? Por que ela não estimula o potencial dos alunos?
Há uma inversão de valores. Suponha que você é muito bom em matemática, mas tem dificuldade em gramática, onde você será orientado a manter o foco? Tanto pais como professores lhe forçarão a se focar na gramática, seu ponto fraco. Você até terá aulas de reforço em gramática. O que acontece? Você melhora em seu ponto fraco e atrofia seu ponto forte. No final, tudo que você atinge é um nível médio em tudo. O sistema de ensino, do jeito como está operando, é uma grande fábrica de mediocridade.
Qual seria, em sua opinião, o verdadeiro papel do sistema de ensino?
Além da função normal, que em grande parte é cumprida, é fundamental que a escola ajude o aluno a encontrar seu potencial e encaminhá-lo para uma área em que esse potencial possa ser desenvolvido. É nisso que estamos falhando.
Outro conceito abordado no seu livro é o que você chama de “Síndrome do Excesso de Oportunidades”. O que é isso?
É a teoria de que, ao contrário do que pensamos, o maior responsável pela mediocridade na vida das pessoas e empresas não é a falta de oportunidades, mas seu excesso. O mundo oferece tantas possibilidades e opções que é muito simples passar a vida inteira saltando de uma opção para outra, sem atingir nada; ou mesmo, ficar paralisado e não optar por nenhuma em específico.
Como saída, você propõe o Conceito Kelleher. O que é isso?
O Conceito Kelleher surgiu de uma citação de Herbert Kelleher, sócio-fundador da Southwest Airlines. Perguntado certa vez sobre o segredo do sucesso da Southwest, Kelleher disse que era capaz de ensinar qualquer pessoa a administrar a sua empresa em 30 segundos. “Tudo que é preciso saber é que somos a companhia aérea que oferece as tarifas mais baixas do mercado”, ele disse. “Uma vez que a pessoa sabe isso, ela está pronta para tomar qualquer decisão pela empresa”, concluiu. Ou seja: se uma decisão vai de encontro à missão da empresa, ela será levada em consideração, ao contrário, não. O Conceito Kelleher, entretanto, é a definição de um propósito específico necessário para qualquer empreendimento pessoal e profissional que servirá de guia, de base, para nossas decisões e escolhas.
Segundo o livro, esse propósito deve ser estabelecido sobre a Lei da Tripla Convergência. O que é essa lei?
Para construir um propósito que reflita o núcleo de nossas habilidades, precisamos encontrar o ponto de convergência da resposta de três questões: onde está nosso talento? Dentro desse talento, onde está nossa paixão? E como podemos transformar essa paixão em renda? Seguir a Lei da Tripla Convergência é encontrar o ponto exato onde talento, paixão e renda convergem. Se o Conceito Kelleher é o propósito que servirá de guia para nossas decisões, precisamos ter certeza de que esse propósito está estabelecido sobre o que possuímos de melhor: nossos pontos fortes. A Lei da Tripla Convergência nos dará essa certeza.
A Lei da Tripla Convergência também se aplica as empresas? Como?
No livro exemplifico essa questão analisando o histórico de três grandes empresas concorrentes americanas: Walmart, Target e Sears. Analiso, com detalhes, os critérios que cada uma usa para disputar um nicho de mercado específico dentro do mesmo setor. A resposta está numa questão chave: ter muito claro porque um cliente deva procurar a minha empresa e não a concorrente. Ou seja: qual é a singularidade da minha empresa? Onde está minha especialidade? Se eu tenho um escritório de advocacia, um salão de beleza, ou uma loja de móveis, a pergunta permanece a mesma, e a resposta inevitavelmente nos levará a Lei da Tripla Convergência. Vai se sair melhor quem possui a estrutura da sua especialidade sobre seu talento e sua paixão e consegue transformá-la em renda.
O que são as três regras da primeira milha?
Mesmo as pessoas que estabelecem seu propósito sobre a Lei da Tripla Convergência têm uma grande tendência de desistir antes de obter os primeiros resultados. O talento, ainda em estado bruto, muitas vezes não está tão evidente, e acabamos abrindo mão dos nossos sonhos. As três regras da primeira milha – crie imunidade à rejeição, entenda o paradoxo da apatia e evite o erro da racionalização –, mostra, através de exemplos como Gisele Bündchen, Stallone e Einstein, uma forma superar essa fase e sobreviver a esse período crítico.
Fale sobre a Lição de Delfos?
Não há como desenvolver os processos que citei até aqui, se você não tem ideia de quem você é, ou se você possui uma ideia equivocada sobre você mesmo. A maioria de nós cria uma imagem mental, por isso abstrata e irreal, sobre quem somos. Essa imagem é feita de opiniões, rótulos, conceitos e idéias que as outras pessoas, ao longo da nossa infância, manifestaram sobre nós. Não somos essa imagem. A lição de Delfos é uma análise que oferece a possibilidade de desconstruir essa imagem e descobrir quem verdadeiramente somos. Remover essa imagem mental é a única forma de resgatar nossa autenticidade. Isso nos liberta do medo e da insegurança, princípios sobre os quais está o fundamento da nossa mediocridade.
Você afirma que nem sempre as crianças mais inteligentes são as que alcançam melhores resultados na vida. Por que isso acontece?
Eu chamo isso de o paradoxo da inteligência. Ou seja: o que define os resultados na vida não é o seu nível de inteligência, mas a compreensão que você tem sobre o que é a inteligência. Esse é um dos mitos sobre o sucesso que afeta negativamente um número extraordinário de pessoas. Por isso, no livro, dedico um capítulo inteiro sobre o tema.
Por que, mesmo quando colecionamos erros, é tão difícil mudar ou cumprir nossas metas de mudança?
Para entender isso, é preciso insistir nesse ponto: a maioria de nós não possui liberdade necessária para fazer escolhas. Ou seja, temos a vontade de mudar, mas não temos a capacidade de satisfazer essa vontade. Superficialmente nos comprometemos com mudança, mas, ultimamente, aquilo que persevera, que decide de fato e faz as escolhas por nós é um padrão mental feito das nossas convicções mais profundas. Estabelece-se, dessa forma, uma divisão entre nossos desejos e nossa capacidade. Essa dualidade cria um vácuo de frustração resultante da impotência que temos sobre nós mesmos. Isso ocorre cada vez que nos propomos a uma dieta e não resistimos ao primeiro pote de sobremesa que aparece a nossa frente. Para se libertar dessa impotência, precisamos mudar a compreensão que temos sobre nós mesmos. Passar a observar nossos padrões mentais, compreendê-los, aceitá-los. Esse comportamento nos abrirá a possibilidade de transformação.
Você também aborda nossa relação com o tempo. Como isso nos afeta na busca do sucesso?
Nós temos uma tendência de criar uma história sobre tudo o que acontece conosco. Essa tendência vem da nossa necessidade de compreensão. Para compreender determinado fenômeno, precisamos encontrar uma causa, algo que possa ser considerado responsável por determinado efeito. Estocamos essas histórias que criamos, com suas causas, em nossa memória, e as usamos cada vez que achamos necessário justificar algum fenômeno no presente. Se você perguntar para alguém, por exemplo, “por que não concluiu a faculdade?”, ele logo virá com uma narrativa, com uma história para a qual ele atribuirá a causa por não ter concluído a faculdade. Quase sempre essas causas são irreais, invenções, racionalizações que usamos para justificar e suportar o fracasso. Precisamos ter mais cautela com nosso ímpeto de confundir um fato real, que aconteceu no passado, com a história que mantemos viva sobre esse fato, e que é irreal, no presente. Precisamos aprender a substituir a narrativa do passado com uma declaração sobre o futuro. A narrativa perpetua o passado, a declaração, transforma o futuro.
*Essa entrevista está autorizada a ser publicada, em parte ou inteira, por qualquer meio de comunicação. Everton Maciel.